Por Cynthia Mariah
Nos últimos anos, estamos recebendo uma maior visibilidade para as artes visuais, registros fotográficos e culturais apresentados pelos olhos negros. Com isso, espaços onde esses corpos foram negados, como museus e galerias de arte, passaram a expor nossa potencialidade artística, fazendo disso um “atrativo” da diversidade.
O que hoje trazem como potencialidade artística de pessoas pretas e indígenas nada mais é que nossa representação natural diante do caos, algo que sempre nos atravessou em nossa essência e que transcende nossa real identidade brasileira. Porém, durante séculos de apagamentos e dominação dos espaços de exposições por uma branquitude pertencente a uma elite hegemônica, essa realidade não era lida como arte, pois, para eles, não era permitida a exposição dessas realidades plurais.
Com os avanços globais dos questionamentos sociais, temos o que chamo de “atrativo” da diversidade, onde as exclusões das representações de base deixam de existir, assumindo dois pilares: um que nem sempre entende a resistência que clama por reparação, com seus pensamentos meramente comerciais de ser politicamente correto, mostrando-se antirracista, com a limitação ainda de ser só para os seus, ainda com limites de acesso e do que pode e não pode ser exposto; e os que, de fato, permitem a reparação como porta-voz de pertencimento.
Porém, essa ocupação só acontece quando pessoas desses grupos passam a ocupar o espaço como agentes pensantes do planejamento. É nessa encruzilhada que o pertencer e existir atravessa as imposições que antes eram aplicadas. É a importância da memória que se esbarra com os locais de dor, dores que, no processo de reparação, se fazem necessárias para de fato existir.
Pensadores como Abdias do Nascimento colocam a representatividade como um dos gatilhos fundamentais de fortalecimento. Esse processo de se enxergar na necessidade leva a inúmeras percepções de acessos que nos foram negados, onde a ocupação desses locais amplia o olhar de caminhos possíveis.
Cada clique, jato de tinta, escultura ou pincelada passa a ser um agente também de afetividade, como se, no expresso momento, nossa existência em um mundo não projetado para pessoas como nós passasse a comunicar, com sua delicadeza, a violência que nos foi aferida por esses mesmos espaços.
Tornar-se pertencente pelas nossas inquietações nesses espaços é a manutenção identitária entre o ser, sentir e estar, o vestir o véu, como nos traz Du Bois em Almas do Povo Negro, fosse sempre necessário para sobreviver em um mundo que sempre negou a nossa existência. Porém, estar ali nos possibilita passar códigos de conexões paradoxais entre a alma e a negritude, que direcionam o saber de si a seus iguais e que os olhos treinados pelo preconceito nunca se permitiram identificar.
Mesmo com suas complexidades, estar nesses espaços hoje é dar acesso à representatividade. E as representações artísticas, em suas diversas linguagens e narrativas, mesmo com as tentativas de desumanização, se dilaceram em resistências. Artes são as nossas ferramentas na contemporaneidade, recebendo menos represálias, principalmente porque curadores negros usam de maestria para codificar subversivamente o que só outro corpo pertencente será capaz de compreender e descodificar por assimilaridade.
Deixo aqui a indicação para visitarem a exposição Zumví Arquivo Afro Fotográfico, que vai até o próximo dia 23/08, no IMS Paulista (Avenida Paulista, 2424, São Paulo/SP – Brasil. Entrada gratuita), e a exposição das obras do artista Ayrson Heráclito, até 12/09, na Galeria Simões de Assis (Alameda Lorena, 2050 A, São Paulo/SP – Brasil. Entrada gratuita). Ambas com curadoria de Hélio Menezes.





