segunda-feira, outubro 5, 2026
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ZONA DE ENFOQUE: TDAH: Vamos falar sobre isso?

Por Cynthia Mariah

Depois de um longo período de crises causadas pelo TDAH e pela ansiedade, retorno à coluna com um assunto que considero importante: a conscientização e o debate sobre essa condição neurodivergente.

Outubro também é marcado pelo chamado “Outubro Laranja”, campanha voltada à conscientização sobre o TDAH. Mais do que falar sobre diagnóstico, porém, acredito que precisamos falar também sobre os equívocos, os estigmas e a romantização que ainda cercam essa condição.

Afinal, quando falamos de TDAH, estamos falando apenas de desatenção e hiperatividade? Ou estamos falando também de como a sociedade interpreta e responde às pessoas que apresentam essa condição?

O TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) é um transtorno do neurodesenvolvimento cujas manifestações começam ainda na infância e podem permanecer na vida adulta. Cerca de 5% a 15% das crianças são afetadas, de acordo com dados do Manual MSD. Vale ressaltar, porém, que a avaliação diagnóstica exige critérios específicos e que ainda existem desafios no reconhecimento da condição.

E aqui chegamos a um primeiro ponto que considero importante: TDAH não é uma condição presente apenas em crianças.

Devido ao conhecimento limitado sobre o transtorno em décadas anteriores, muitas pessoas só passaram a ter seus diagnósticos e laudos na fase adulta. Algumas chegam a esse momento depois de anos se perguntando:

“Por que nunca éramos compreendidas?”

Antes do diagnóstico, fomos muitas vezes consideradas inquietas, irresponsáveis, bagunceiras, distraídas ou desorganizadas.

Mas existe também uma outra narrativa, aparentemente positiva, que merece ser questionada: a romantização das pessoas com TDAH como necessariamente inteligentes, extremamente criativas, inquietas ou capazes de realizar inúmeras tarefas ao mesmo tempo.

E é aqui que eu digo:

Mas, pera lá…

Reconhecer potencialidades não significa ignorar dificuldades.

Uma pessoa pode ser criativa e, ainda assim, enfrentar dificuldades para organizar ou concluir uma tarefa. Pode ser inteligente e ter problemas relacionados à atenção, ao gerenciamento do tempo ou à organização. Pode experimentar momentos de hiperfoco e, ao mesmo tempo, não conseguir iniciar uma atividade aparentemente simples.

Uma característica positiva não apaga uma dificuldade.

E talvez seja justamente essa romantização que contribua para que algumas pessoas questionem o diagnóstico de outras. Afinal, se alguém é criativo, inteligente ou produtivo em determinadas situações, por que precisaria de um laudo?

Precisamos ter cuidado com essa lógica.

O diagnóstico não existe para transformar uma pessoa em um conjunto de limitações. Ele pode ser uma ferramenta para compreender melhor determinadas dificuldades e buscar formas de lidar com elas.

E quando falamos das mulheres?

Os diagnósticos tardios também nos fazem olhar para outra questão: as diferenças na forma como o TDAH pode ser percebido em homens e mulheres.
Durante muito tempo, determinadas expectativas sociais sobre o comportamento feminino fizeram com que muitas mulheres aprendessem a compensar, esconder ou mascarar dificuldades para corresponder ao que se esperava delas.

Precisamos, portanto, olhar para o diagnóstico feminino também a partir das pressões sociais.

A necessidade constante de adaptação pode produzir sobrecarga e exaustão. E, quando determinadas características são mascaradas ou interpretadas de outras maneiras, o reconhecimento do TDAH pode se tornar ainda mais difícil.

Isso não significa afirmar que toda mulher com TDAH tenha a mesma experiência. Significa reconhecer que gênero, expectativas sociais e acesso à informação também podem atravessar a maneira como uma condição é percebida e diagnosticada.

E no Brasil, quais são os nossos direitos?

No Brasil, a discussão sobre TDAH também envolve educação e políticas públicas.

A Lei nº 14.254/2021 estabelece o acompanhamento integral de educandos com dislexia, TDAH ou outros transtornos de aprendizagem, incluindo identificação precoce, encaminhamento para diagnóstico e apoio educacional e terapêutico especializado quando necessário.

Isso é importante porque falar sobre TDAH não significa falar apenas de comportamento ou diagnóstico. Estamos falando também de educação, saúde, trabalho, acesso à informação e condições de permanência e desenvolvimento.

E ainda precisamos discutir como esses direitos são efetivamente conhecidos e acessados pela população.

Porque uma lei existir é uma coisa.

Saber que ela existe e conseguir acessar aquilo que ela prevê é outra.

Não é apenas sobre produtividade. Falar sobre TDAH é importante para que as pessoas entendam que não estamos simplesmente deixando de lado as características que muitas vezes são enxergadas de forma romantizada sobre nossas habilidades.

O que precisamos ressaltar é que o TDAH, quando não acompanhado adequadamente, somado à falta de compreensão sobre suas características e limitações, pode causar
prejuízos reais. E não estou falando apenas dos prejuízos financeiros e materiais, embora saibamos o quanto isso também pode afetar nossa vida profissional. Estou falando da vida como um todo.

Para muitas pessoas, a experiência pode envolver horas de procrastinação, dificuldade para iniciar ou concluir tarefas, crises de ansiedade, pensamentos acelerados, inúmeras tarefas inacabadas, falta de foco ou hiperfocos incompreendidos, dificuldades nos relacionamentos, momentos depressivos e muitas outras situações.

Só quem vive determinadas experiências sabe o quanto elas podem afetar o cotidiano.
Mas também precisamos ter cuidado para não transformar essa experiência em uma regra universal. TDAH não se manifesta da mesma maneira em todas as pessoas. É justamente por isso que informação de qualidade e acompanhamento profissional são tão importantes.

Então, vamos falar sobre isso?

Talvez o primeiro passo seja justamente esse: conscientizar e debater.
Principalmente pessoas que suspeitam ter TDAH ou que receberam um diagnóstico, mas também seus familiares e pessoas próximas. Buscar orientação e acompanhamento não significa procurar uma desculpa para dificuldades. Significa buscar compreensão. O TDAH não tem cura, mas existem formas de acompanhamento e manejo que podem contribuir para reduzir prejuízos e melhorar a qualidade de vida.

Precisamos aprender a respeitar nossas limitações sem transformar essas limitações na definição de quem somos.

E precisamos também parar de transformar nossas potencialidades em argumento para negar nossas dificuldades.

TDAH não precisa ser romantizado.

Também não precisa ser tratado como preguiça, irresponsabilidade ou falta de esforço.
Precisamos falar sobre ele com mais informação, menos julgamento e mais disposição para compreender.

Talvez o primeiro passo seja simples:
em vez de perguntar “por que essa pessoa não consegue?”, começar a perguntar “o que ainda não estamos compreendendo?”.

TDAH: vamos falar sobre isso?

Indicações para saber mais
Mentes Inquietas – TDAH: Desatenção, hiperatividade e impulsividade
Ana Beatriz Barbosa Silva — Editora Objetiva.
TDAH: Tudo que seu filho com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade quer que você saiba
Dra. Sharon Saline — Editora Buzz.
Vencendo o TDAH Adulto: Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade
Russell A. Barkley e Christine M. Benton — Editora Artmed

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